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Como uma fita cor de pêssego feita à mão virou o laço rosa que hoje movimenta dezenas de empresas


01.10.2026

O laço rosa, símbolo mundialmente associado à conscientização sobre o câncer de mama, nasceu de uma disputa comercial: uma ativista independente, Charlotte haley (1922-2014), criou um laço cor de pêssego para pressionar por mais verba em pesquisas, mas viu o símbolo ser reformulado em rosa e lançado nacionalmente por uma revista de moda e pela gigante de cosméticos Estée Lauder em 1992, sem que ela cedesse os direitos da ideia original. Nas décadas seguintes, o laço se tornou a base de um mercado bilionário que hoje reúne de 80 a 100 grandes empresas, segundo estimativas do setor de marketing de causa.

A associação entre fitas e causas sociais nos Estados Unidos remonta a 1979, quando Penney Laingen amarrou fitas amarelas em árvores à espera do marido, um refém mantido no Irã, episódio que popularizou o gesto como símbolo de solidariedade. Onze anos depois, ativistas da luta contra a Aids adaptaram o símbolo, tingindo-o de vermelho e apresentando-o nacionalmente durante uma premiação de teatro, o que impulsionou a adoção de fitas por praticamente toda causa beneficente do início dos anos 1990.

Foi nesse cenário que Charlotte Haley, uma mulher de 68 anos com histórico familiar de câncer de mama, começou a fabricar à mão, em sua própria sala de jantar, laços na cor pêssego. Cada conjunto vinha acompanhado de um cartão alertando sobre a baixa fatia do orçamento do Instituto Nacional do Câncer destinada à prevenção da doença. Distribuindo o material em mercados locais e enviando cartas a figuras públicas, Haley conseguiu espalhar sua campanha de forma artesanal, ganhando repercussão em colunas de jornais.

Quando a revista Self, então sob o comando da editora Alexandra Penney, tentou se associar a Haley para dar ao laço “visibilidade nacional” em parceria com a Estée Lauder, a ativista recusou a oferta, considerando a proposta comercial demais. Diante da resistência e por orientação jurídica, a revista e a fabricante de cosméticos optaram por mudar a cor do laço, adotando o rosa. Em outubro de 1992, a Estée Lauder distribuiu 1,5 milhão de fitas rosa em suas lojas nos Estados Unidos, além de recolher mais de 200 mil assinaturas para pressionar por mais recursos federais à pesquisa, consolidando em poucos meses o símbolo que hoje é hegemônico.

Entre 1991 e 1996, o financiamento federal para pesquisas sobre câncer de mama quase quadruplicou e o número de mulheres fazendo mamografias mais que dobrou, mas críticas persistem: ativistas como Barbara Brenner questionam se a “conscientização” gerada pelo laço realmente muda políticas de saúde ou só maquia a imagem das empresas, já que o câncer de mama, ao contrário da Aids, é uma causa sem estigma e por isso mais atraente ao marketing corporativo. Como sinal de desgaste do símbolo, surgiram alternativas como o alvo azul da moda, o laço roxo na Costa Oeste dos EUA e variações canadenses, refletindo um desconforto crescente com a mistura entre saúde e interesses comerciais.

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